segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Painho todos os dias desce o rio para pescar. Mãe alevanta quatro da manhã, passa o café e o chama para ordenhar a vaca Flora. Quatro e meia eles se despedem e mãe começa a jogar o milho das galinhas. Do estábulo ela grita que já é hora de me alevantar, pois o ônibus do colégio vai passar. Me alevanto meio zonzo, com a boca de baba e os olhos cheinhos de remelas. Escovo os dentes e me visto sem tomar banho. Esquento o leite e bebo com dois cream crack. Não podemos comer mais de dois, pois é a conta certa da casa. A feira só acontece nos sábados e se a gente comer demais um dia vai ficar em falta. Do quintal, mãe me grita dizendo ouvir o transporte se aproximar. Apanho o caderno e a caderneta de notas e desço o morro em disparada. Dois minutos depois chego ao mata burro e espero. Na espera do trem do ônibus, avisto uma surucucu no alto do pé de jaca. Tenho medo da diaba. Fico longe e atento. Dou um grito para mãe e aviso que a diaba está por perto. Ela responde com um som doce para confirmar que me ouviu. A diaba, também, me escuta e muda de galha. São quase seis da manhã e em pouco instante seu Deraldo deve passar. De longe, avisto painho vindo com a farrapa, a bolha e a vara de pescar. 

Painho, Seu Francisco, vem triste, com lágrimas nos olhos. Corro para encontrá-lo e o homem da minha vida me abraça. Nunca havia sentido tanta dor no abraço de alguém. Nos olhos dele corriam lágrimas de sangue, não eram só de dor ou tristeza, era por mais e bem maior. Voltei para casa com ele e esqueci a escola e a surucucu que me viajava no pé de jaca. Na certa, a diaba pensou que voltei para casa com medo dela. Mas não era. O motivo era o rio de sangue correndo nos olhos de painho. Chegamos em casa, ele entrou, jogou as ferramentas na sala e voltou para o batente da casa, se aquietou no canto e deu a ficar cabisbaixo. Tempo depois, chamou mãe e lhe contou o que viu: 

- Mataram o Rio, Tereza! Os peixes estavam sem forças e muitos me pediram socorro, nada pude fazer. Mataram, também, os pés de bananeira, a jaqueira e outro bocado de planta do mato. 

Painho deu a chorar o dia inteiro, não tinha remédio e palavra para consolar. Deitou-se no banco da sala e feito criança não se acalmou. Mãe até chamou o doutor da cidade, mas o diagnóstico foi: 

- É tristeza! Só Deus pra curar. 

E painho ficou amuado no canto da casa sem querer comer ou beber. Passaram-se dias ele permanecia no canto da casa. O homem, que não era mais meu pai, começou a definhar, perdeu todo cabelo da cabeça e os pelos do braço. Ficou irreconhecível. Mãe fazia uma papa com farinha de guerra e leite da vaca Flora para ele comer. Ele apenas beliscava com duas ou três colheradas, nada, além disso. 

Nossa casa foi ficando vazia, o barulho se calou, só não o choro moído de dor de painho, que mesmo morrendo ainda tinha lágrimas. Numa madrugada de Santana, deu a chover muito com relâmpagos e trovões. Painho dormia no pé da mesa, na minha cama. Por isso, mudei de quarto e passei a dormir com mãe. Foi preciso, pois nunca mais ele quis sair do canto da sala. Chamamos o senhor polícia e o corpo de bombeira da cidade, nada adiantou.  Só uma promessa de que tentaria ir para o quarto. E naquela madrugada em que o pé d'água não se aquietou, painho se foi e nos deixou. 

Ele morreu com o rio, só não morreu na hora que viu a cena, pois precisava agonizar como os peixes agonizavam. Na cabeceira da cama, encontramos um bilhete em garranchos, dizendo: Lancem-me no rio.

sábado, 14 de novembro de 2015

na minha última noite de sono, sonhei que Caetano e Gil faziam o show da turnê deles, exclusivamente para mim. era uma delícia. mas, de um instante para outro, não eram mais eles dois e seus violões, para me agradar; era minha radiola deixando escapar o encanto, e a música vinha duma rádio dessas que tocam música popular brasileira. na cama, sentia eles dois me invadindo com suas letras de músicas, seus eclipses ocultos, seus homens, seus com fé e a pé, com seus linhos. mesmo escutando-os numa radiola velha, me senti completamente privilegiado, eram os dois, as duas figuras da música brasileira que mais me agradam, que mais me encantam e seduzem. era um sonho e dos melhores e por ser bom, ele fora interrompido. um novo sonho se jogou por cima, como se fosse um pano cobrindo o ouro, escondendo o diamante. no novo sonho, um galo negro subiu na minha cama, ficava bem na quina, e eu ainda querendo permanecer com caetano e gil, batia valente as pernas para tanger o galo preto que invadia meu sonho baiano e doce bárbaro. de repente, o galo desapareceu e surgiu uma peça de lego. a peça, andava debaixo do lençol e corria me fazendo cócegas. para tentar escapar do pesadelo, acordei rindo, quase mijando, ainda sentindo a peça de lego me fazendo cócegas. quando arregalei os olhos, havia um galo negro na esquina da minha cama. na verdade, ele ainda permanece nela. e eu tenho medo de voltar para dormir e ele me picar ou morder. galo pica ou morde?
no último sábado, tive um apresentação e uma entrevista no pelourinho. quando marquei os dois compromissos dei o espaço de duas horas entre um e outro. por ter acordado às onze da manhã, atrasei, no primeiro. corri para o ponto e logo peguei o primeiro transporte. sentei no último assento livre do ônibus. ao meu lado direito, um rapaz negro, suado e com um balde vazio com cheiro de sardinha. na cadeira da frente, outro rapaz compondo as mesmas características do que estava ao meu lado. dois rapazes negros, suados e que levavam em seus bolsos uns trocados que se transformariam em leite, pão e alguma outra coisa que cabece. certamente, em casa, uma mulher aguardava cheia de esperanças pelos trocados junto com alguns filhos enfeitados com barrigas d'águas, barriga de quem tem fome, mas fingi não tê-la, para continuar sorrindo do mundo e da tristeza. do outro lado, no esquerdo, uma senhorita, uma menina, uma cidadã corajosa, um ser humano que deu a cara à tapa. o cabelo artificial era maior que o meu quando solto, a pele negra estava coberta duma saia média de algodão e um blusa preta com alguns detalhes em prata. uma menina corajosa, que não se rendeu às intolerâncias, uma mulher que ultrapassou a rejeição de quem acredita ser dono do universo, dono das leis. uma garota que não se desesperou quando percebeu que alguns olhares a cruzavam, e algumas dezenas de dedos apontavam entre cochichos e risos de chacotas. do lado dela, minha vontade de abracá-la e dizer que seguisse no caminho em que ela se sentisse bem, feliz e sendo verdadeira consigo mesma. mas, não a disse. talvez, por covardia ou por medo de não ser compreendido. mesmo com tanta coragem. nos quinze minutos do meu ponto até à estação de ônibus ela não sequer levantou os olhos uma vez. muito provavelmente, não queria perceber os olhos de mais da metade dos passageiros lhe detalhando, comentando sobre ela. chegada à estação, desci na frente e evitei ser mais um que a olhava. por passar do horário combinado, corri para o ponto de espera. os dois compromissos me aguardavam, já estava dez minutos atrasado. passado alguns instantes, a menina que veio ao meu lado dentro do ônibus, chegou na fila em que eu estava e logo perguntou:
- este ônibus passa na liberdade?
respondi:
- sim.
e neste instante, entendi, ela estava ali, pois vivia em liberdade, e quem conhece o gosto dela, compreende que é preciso ser livre e feliz
Dona Maria casou-se com Jorge Peixada um dia após completar vinte anos de idade. Em seu tempo, seu Jorge precisou conquistar a confiança do seu Antônio Barbeiro, para se aproximar de Dona Maria, que naquele tempo de moça era conhecida como - Mar da Flor. Foi num dia de muita chuva na roça no município de Amargosa, no interior da Bahia, que Jorge viu sua futura esposa pela primeira vez.Ela lhe trouxe uma toalha que o pai, seu Antônio,  havia ordenado. Sem olhar nos olhos de Jorge, ela entregou-a e saiu desparada para o quarto. Trancou a porta, pois havia sentido algo estranho naquele pouco tempo em que estiveram próximos, pela primeira vez. Da fechadura da porta, viu Jorge tirar a camisa e enxugar o corpo gordo. Para Mar da Flor foi uma descoberta incrível, pela primeira vez havia visto um homem sem camisas. Nem o próprio pai  ficava sem camisa pela casa. Jorge fora o primeiro que ela vira. Os dias foram se passando e Mar da Flor não pensava em outra coisa. Deixou o arroz carreteiro queimar duas vezes. O leite da vaca não foi tirado durante uma semana. Ela passava as noites em claro, sonhando acordada e não conseguia  levantar às cinco horas da manhã. Passou uma semana quase adoentada, perdeu três quilos e não queria ir mais para escola, lugar que ela mais adorava ir, antes de conhecer Jorge. Quando ia, a lição era escrever o nome de Jorge por toda caderneta. Certo dia, voltando para casa, Jorge passou amontado num jegue. E perguntou para onde ela estava indo. Respondeu timidamente que - para casa. Impulsivo, Jorge ofereceu carona em sua garupa. E foram juntos até na ladeira do Cavaco, ela desceu e agradeceu pela carona. E ele disse - pela gentileza da toalha. Seis meses se passaram e os dois repetiram o ritual todos os dias, até aos domingos, quando Mar da Flor ia no túmulo da cadela Zetinha. A coitada morreu picada por uma surucucu. Era tarde da noite e a serpente conseguiu entrar na casinha da Zetinha. Entrou só para picar. Os latidos de dor e sofrimento acordaram os pais de Maria e ela, que saiu desesperada para ver o que havia acontecido. O último suspiro de dor fora nos braços de Mar da Flor. A cobra no alto do cajueiro sacudiu os galhos para avisá-los quem tinha feito o serviço. Eles a viram e ela rapidamente deu-se a rastejar e desaparecer das vistas. Na manhã seguinte, Zetinha ganhou velório, samba de roda, comida e bebedeira. O enterro aconteceu às cinco da tarde, no sol se por. Desde então, Mar da Flor vai no alto do cavaco deixar as flores prometidas. Durante todos os seis meses, nunca aconteceu um beijo. Eles se fizeram amigos, conheceram os gostos e os desagrados. Num dia do mês de Santana, Jorge entrou no casario em que Mar da Flor morava com os pais e ajoelhado em frente da moça, pediu-a em casamento. Os pais que já haviam percebido as mudanças ocorridas desde o dia em que Jorge entrou na casa todo molhado da chuva, concordaram com o pedido. Mandaram avisar aos parentes de longe que Mar da Flor, a única filha do casal, iria casar. No dia da festa do Bom Jesus da Lapa, Jorge Peixada e Mar da Flor, casaram-se. Vivem felizes, apesar das brigas quando falta Broa e Beiju no café da manhã.  Há sessenta anos eles dividem os dias. Tiveram onze filhos, treze netos e sete bisnetos. E vez ou outra se perguntam a quem o neto Ruan de 19 anos puxou. A pergunta vem sempre após a despedida do garoto. Eles não entendem bem e não fazem questão de entender por qual motivo o garoto, passando o dedo numa tela, mostra com orgulho as meninas que ele tá querendo pegar, as que já pegou e as que ele chama de Dragão.
Eu tinha as moedas que o menino de sete anos me pediu para comprar café com pão. Mas neguei os dois contos ao menino de sete anos que não tem pai nem mãe.
Ao virar à esquina da rua entrei no MC D. e paguei vinte contos por um quarteirão e adicionais que a caixa chamou de promoção. Comi a carne amarga do sanduíche Norte Americano como se fosse espinhos cortando minhas cordas vocais. O refrigerante serviu como uma correnteza que levou o que me cortava para dentro do estômago. Quando terminei, arrotei um bafo fedido e não me satisfiz. Dentro de mim havia algo me cortando.
Levantei e deixei a franquia Americana com um papel toalha secando minha mão. Atravessei a pista sem sequer olhar os lados da rua. Tive medo de avistar o menino de sete anos dentro duma lata de lixo ou assaltando para conseguir dois reais que não me fariam falta naquela manhã de domingo.
Abri a porta do meu apartamento e encontrei meu lar me esperando com um recado da minha mãe na secretária eletrônica, enquanto meu cachorro vira-lata lambia minha perna. Minha mãe dizia que o almoço do domingo seria reunião de família e amigos e que eu poderia convidar os meus conhecidos.
Fui para o banho com o garoto na cabeça, as palavras dele e o meu “não” sem som, com o olhar.
A cena do menino me dando as costas com uma das mãos balançando um pedaço de galho seco, cravou no meu peito e feriu. Neste instante, ele já devia ter mais fome.
Preparei a mochila, arranquei o aparelho celular do carregador e desci os degraus das escadas me odiando e com mil planos na mente.
Abri o portão do prédio e fui correndo em direção à esquina do Fest Food. O menino estava lá. Ainda tentava encontrar alguém para lhe pagar o café da manhã. Puxei-o pelo braço. Chorei aos pés dele e pedi perdão. Implorei que me perdoasse por negá-lo. Sem entender, me perguntou:
- O que fiz, Tio?
Não lhe disse nada e pedi que me acompanhasse.
Bati na casa da minha mãe e recomendei que desse ao garoto pão e café com leite. Antes, levei-o ao banho. E vesti com roupas da minha meninice. Enquanto o sol chegava ao centro do céu, o menino se fartava com os pães frescos e torrados com manteiga e queijo mozarela.
Os convidados foram chegando e as crianças dentro da timidez se conservavam nos primeiros cinco minutos. A mesa do almoço foi posta às quatro da tarde. Naquele dia, o menino de sete anos foi o primeiro a ser servido, foi o convidado especial do dia. E o domingo acabou com ele sonhando na minha cama de criança. E até hoje, dez anos depois, essa cena se repete.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

meu filho, eu sei que tu só sabes escrever na madrugada, quando a casa inteira estala seus detalhes e ninguém mais ronda os cômodos. mas não te esqueças que é neste momento em que durmo, preciso descansar o corpo que dia corre os fins do mundo para te trazer o pão de cada dia. se tu amas de verdade essa sua coisa estranha de criar mundos com as mãos, aprenda a enxergar nos escuros. meu filho, quando durmo, só consigo me aprofundar nas fases do sono com as luzes da casa, apagadas. qualquer matéria luminosa ao meu redor, durante o sono, penso ser o sol, e, é, o sol quem me acorda para viver uma nova batalha. se tu, meu filho, que perde o momento de dormir para ficar na frente da sua máquina de escrever, da sua máquina de fazer mundos, de criar indizíveis, de desenhar com palavras os quadros mais lindos do mundo da arte literária, então, meu filho, engula o choro, abra teus olhos grandes, e aprenda a ser escritor no escuro. aprenda a escrever sem precisar de luz. se tu, romper com toda essa escuridão, e um dia enquanto cruzar as ruas, uma criança te olhar, querendo dizer com os olhos inocentes que já te leu, neste instante, acredite, meu filho, as noites na escuridão valeram muito. enquanto este teu momento não acontece, apague as luzes da sala e do seu quarto, preciso dormir. não demore muito aí sentado. cuidado com sua coluna, lembre-se são muitos parafusos te prendendo na vida. deus abençoe.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

o vendedor de água entrou no ônibus em que eu estava. entrou pela porta de saída. usava uma bolsa de lado e boné para proteger do sol. começou anunciar água mineral por um real em copo e por dois reais em garrafa. começou anunciar seu produto de qualidade - água mineral. e disse mais: " a situação está complicada, são sessenta e tantos bairros em salvador sem água. tá barril ficar dois dias sem tomar água. eu sei que é muito complicado ficar em casa e não ter água nem para beber... mas não se preocupem. vocês vão beber água, agora. em casa não tem água, mas no ônibus você encontra e é na minha mão que vocês poderão comprar. olhe, pessoal, estou passando, eu sei que o calor está de matar. é muito calor. e ainda temos sessenta e tantos bairros sem água. em casa vocês estão sem água, mas no ônibus vocês encontram...(ele reforçava o argumento.)." . o vendedor anunciava seu produto, enquanto me dirigia até a porta do desembarque. na minha frente, um rapaz jovem olhava o vendedor anunciando o produto, enquanto eu não conseguia segurar o riso da cena cômica e trágica. o rapaz não ria. estava sério e com ódio. talvez, com ódio de mim. e quanto mais eu ria,  com mais cara de ódio ele ficava. os outros passageiros nem prestaram muito atenção no vendedor, alguns conversavam, outros babavam e um rapaz alto e bonito que acabara de entrar no ônibus, tentava encaixar sua bunda no último assento disponível no ônibus com itinerário - lapa. precisei descer do ônibus e abandonar o vendedor de água.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Família.

todos os dias a vila de pescadores que fica cem metros da janela do meu apartamento amanhece sempre igual. os homens negros e alguns poucos brancos já se amanhecem salvando sua rainha do mar. meu despertador sempre soa às cinco horas da manhã, para que eu não perca o atracar das embarcações, no pier.
na última noite do acontecimento que vou contar, aqui, não preguei os olhos. andei por quase duas horas sem parar dentro do meu apartamento, uma única vez fui até a garagem para pegar um livro que havia comprada na livraria do shopping, na tentativa de ganhar sono ao começar a lê-lo.
fui para janela do quarto no escritório e fiquei observando o mar refletindo as estrelas do céu, em sua pele fina d'água. de repente, uma mulher vestida de branco e manchada de vermelho se aproximou do velho saveiro e colocou com cuidado e um resto de amor humano um pacote embrulhado. de minuto em minuto o pacote se mexia, ardia em choro e acordou toda a vizinhança. os pescadores, ainda no mar, sentiram vontade de regressar e voltaram imediatamente, todos.
amarraram suas velas antes das quatro horas da manhã, com quase peixinho nenhum. o mais velho e talvez o maior sabedor de lendas, sentiu o choro desesperado ecoar dentro dos ouvidos acostumados ao barulho do mar. ouviu o grito de suplica de quem acabara de chegar ao mundo, na noite em que os Senhores das Leis do país que nascera lhe negara ter uma família.
o velho marinheiro do mar da baía do cavalo marinho, havia chorado um pouco antes, em frente a tevê. chorou com mais dor e fome que a criança que acabara de encontrar no abandono do amanhecer do dia.
triste por não poder levá-lo ao seu barracão de embarcações, onde ele morava desde a última década, quando sua esposa Almira faleceu, vítima de uma mordida de baleia. chamou a polícia e entregou o pacote.
da janela, anotei a série de números que identificavam o posto policial a qual pertencia aquele camburão. enquanto calçava o tênis de malhar, liguei para o Pedro, meu marido e lhe disse que estava indo buscar nosso filho, a Família iria aumentar, naquele dia. eu contaria para todos que em minha casa existe uma família de dois pais e um filho quase marinheiro. a casa ganharia barulho e o mar ao fundo iria cumprimentá-lo sempre que o visse.
cheguei no posto policial e disse ao delegado de menor que uma criança abandonada naquela noite ganharia um lar. seria feliz, pois teria uma legítima Família Feliz. o senhor delegado quis saber o nome da outra parte que acabara de chegar em casa do trabalho e me aguardava com a parte que aumentaria nosso amor. dei o nome do Pedro e o delegado suspirou fundo, me perguntou se eu não havia lido o noticiário da madrugada, se eu não havia conferido a nova lei da Família. respondi que não assisto telejornais desde o dia em que um repórter me matou com uma nota do maior jornal impresso do país.
Sentei junto aquele homem delegado e por cinco minutos ele me contou tudo que os Senhores da Lei combinaram na mesma noite em que o bebê fora abandonado, ao lado dum saveira. eu não poderia adotá-lo, pois aquela criança seria, segundo eles, infeliz, por não viver de acordo com a Lei do País.
Sem ter palavras para discutir, não disse nada ao delegado. Ele também era um coitado e sofria, pois em sua casa, a Família que ele construiu compunha de duas irmãs virgens, um filho e ele.
cheguei em casa em prantos. dois dias depois comprei blocos e cimento para fechar a janela do meu apartamento que dava para o mar. nunca mais iria olhar o mar do quarto do escritório, seria uma forma de tentar esquecer que num orfanato existe uma criança triste, que procura por amor, mas precisa esperar uma família configurada de um pai e uma mãe, para fazê-lo Feliz.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

a doutora chegou no céu de jaleco. ainda tonta com o estrondo da pólvora que, escapou da automática apontada para ela às seis da tarde. sem saber onde estava, ela me viu sentado numa pele de algodão, contando pedrinhas de diamante. e, assustada, perguntou, "onde estou?". olhei-a e percebi o desconhecimento com sua mudança de cenário. respondia que, "só há duas semanas que cheguei. mas aqui é o melhor lugar que se tem para ficar. tudo dá prazer. todos dizem "muito obrigado" ". sem saber o que significava o "aqui", ela me contou que, "estava na porta do prédio do namorado, mas que de repente, se deparou comigo, nesse lugar estranho.". abracei-a, segurei pelas mãos e a levei para conhecer o dono do mundo. agora, eles conversam, ela sorri abraçada com o irmão que fazia anos que não o via. acho que ela já deve saber que "aqui" é o céu.
hoje me ajudaram a carregar minhas compras. foi pela manhã numa feirinha perto de casa. comprei ingredientes para fazer uma sopa e cozinhar o feijão com prego. paguei noventa e cinco reais entre legumes, verduras e frutas. o moço da quitanda disse que os preços estavam mais elevados por causa da crise econômica. contei para ele que, o pé de abóbora, a bananeira e muito menos o pé de pimenta malagueta, crescem mais ou menos, por causa da crise. ele quis se justificar, mas lhe desejei bom dia e deixei o troco para ajudá-lo com à crise. os sacos estavam muito pesados, eram em setes; o da banana parecia rasgar. andei por cinco metros em malabarismo com cú no ponto para que não rasgasse. parei na sinaleira para atravessar, dois minutos depois, o sinal fechou e um rapaz bem magro, branco e de cabelo pintado de vermelho, correu e tomou cinco dos sacos das minhas mãos. assustado com a situação, disse-lhe "não precisa, querido". mas, logo, meu orgulho cessou e o rapazinho foi me seguiu até o nono andar do meu apartamento. chegamos, entramos, ele pôs os sacos em cima da pia e disse "já estou indo, tia!" e desejou "bom dia, para a senhora". do quarto, respondi, "espera aí". quando voltei, o magrelo já não estava e as moedas que acabara de catar no cinzeiro,para retribuí-lo, ficaram espalhadas por longos dias em cima da mesa. pelo visto, o garotinho, não estava vivendo à crise econômica que, o hortifrutigranjeiro estava sofrendo junto com país dele. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

deu um estalo.
botou a mão no peito e disse:
- lá vem minha morte. corre, chama alguém.

a formigada que trabalhava na construção 
do formigueiro tomou um susto 
com o tombo do corpo do dono no chão.

durinho e sangrando pelas ventas 
nunca mais vai voltar a viver. 

no enterro, flores e coroas, para dizer adeus.
havia um córrego salgado correndo em meio mundo
de gente, na manhã de junho de mil novecentos e treze.

depois de colocado no buraco e tapar com areia, arenoso, 
cimento e brita, e, amassado com colher de pedreiro e força
de um macho forte, moreno, o coveiro terminou o serviço, 
e, o pedaço de gente que veio ao mundo nuelo, se acabou
dentro de um paletó, desenhado por um alfaiate francês, 
que veio para o rio de janeiro, num navio cinco estrelas,
pole dance, cabarés e mulheres de vagina flácida e cu
despregado, de tanto fazer amor e sexo, durante a viagem.

nunca mais na vila, outro estalo foi tão profundo
como o do josé bonifácio mendonça,
cavalheiro de guerra e moço bom para casar 
e ter dezoito filhos, setenta netos e vinte e sete bisnetos.

sábado, 22 de agosto de 2015

O bêbado Jorge Amado.

- Alô... 

- alô!

- Telefonista, você pode me transferir para casa da filha de Jorge Amado?

A telefonista fez uma pausa na respiração e passados alguns segundos, pediu que esperasse que, iria transferir. 

Quem atendeu ao telefone foi a empregada de Paloma Amado, filha de Jorge e Zélia. Dei boa noite à criada da casa e solicitei que chamasse sua patroa, Paloma. 

- Querida, por favor, Paloma se encontra?

ela respondeu com voz fanha:

- Sim. SIM. Vou chamar.

Depois de cinco minutos, finalmente estava na linha com a filha de Jorge. E, sem cerimônia, fui atrevido e passei o monólogo que seu pai me fez, através de um beberrão que, só entrou no ônibus para me falar comigo. 

- Querida, é o seguinte: Fui inventar de comprar o livro, Bahia de Todos os Santos, do seu pai. E, inclusive, nesta edição, da companhia das letras, vem com um posfácio seu, seguido de uma fotografia do Flávio Domm. Comprei essa nova edição após uma longa conversa com alguns estudiosos da obra, na Academia de Letras da Bahia. Lamentamos muito à sua ausência. Justificaram que você estava numa viagem, mas, pelo que parece, mentiram. Só que, isso, agora, não importa muito, não. Isso é papo para vadiagem, gente que perde à tarde inteira na porta de casa ou do vizinho, olhando quem passa na rua. 

Do outro lado da linha, Paloma se sentava na poltrona do pai. Não adivinhei, mas o barulho do almofado afundando com o peso do corpo me deu essa sensação. Pude imaginar a poltrona de jorge estourada com o calor da cidade da Bahia, mas conservada, para nunca mexer na presença deixada, na casa, por seu pai. A respiração de pouca paciência e de que estava deixando uma série de afazeres sem fazer, para me atenção, me deu um desconforto, por saber que, incomodava. 

Sem querer me prender nisso... continuei, dizendo-a:

- Enquanto folheava as primeiras páginas do livro e lia a carta de recomendação com uma linda dedicatória para sua mãe, Zélia, entrou um beberrão, desses que só vai em botecos que conservam a arquitetura antiga dos bares da cidade: Uma pilha de caixa de coca-cola em cada lado da entrada da porta e um tira de madeira, fazendo de bolcão. Ele, o beberrão, deu mão ao ônibus que, me levava para casa, e, entrou de grátis*. Imagino que, o bêbado seja um velho conhecido do motorista, para ter tanta moral, assim. Havia muitos assentos desocupados, alguns, com janelas livres e tudo. Porém, a missão dele era falar comigo. Enquanto lia a carta, ele se aproximou e sentou ao meu lado. Lançou o olhar às páginas do livro e quase me tocando, disse:

- É. A Bahia ainda vai mudar muito. MUITO - enfatizou -. As coisas mudaram. Tudo tá muito diferente do que era antes. Esse negócio de tecnologia tá acabando com a Bahia. Tempos atrás nada era assim. Até os ônibus estão mudados. Antes, os nomes das empresas eram bonitos, tinha um sentido, representava. Hoje, nada. Repare. BTU, Axé, Transol, Rio Vermelho, Praia Grande... Agora, colocaram o nome de Integra. ruum... Integra. Já se viu... E, pior é que tudo vai mudar mais ainda. 

- Paloma, querida, nesse instante, sabendo de toda tragédia editorial que, o livro passou, até a última  edição. Imaginei que, ali não fosse um bêbado, mas seu pai, me dizendo algo. Compreendi que, quem agora, deveria cuidar da cidade, era eu. Se você não sabe, escrevo poesia, e vez ou outra, escrevo uma crônica para compartilhar com alguns bons e velhos amigos. Nada demais. 

A respiração funda de Paloma poderia ser escutada sem precisar encostar o ouvido no aparelho telefônico. Imaginei que, neste momento, o almofado em que ela estava sentada, era forçado a redistribuir as espumas francesas, da poltrona, para se adequar ao peso. Pude escutar, também, a criada perguntando se o arroz era com ervilha ou sem. Acredito que, não houve resposta da patroa, por educação, com quem estava na linha do telefone. Ela, estava consciente, agora, da importância e significado fugaz que eu ganhara, naquele instante. Depois do telefone desligado, algo me dizia que, ela, pensara ser um trote e deixara de pensar; continuaria a escrever o protejo ilustrativo que mandaria via sedex ao Bel Borba. 

Continuei contando o caso e, antes mesmo de finalizar a ligação, fiz um comentário desnecessário, mas, que,  minha vaidade de leitor não deixou passar. E disse-a que, o bêbado até comentou sobre minha dedicação em ler à noite. E que, ele, havia se queixado da letra miudinha, do livro. Confessou não ter a mesma potência de visão de quando tinha minha idade. O beberrão não sabia quantos anos de fato tenho, mas concorda que tenho muito menos que a dele. 

Do outro lado da linha, Paloma perguntou se eu tinha algo mais para contar. Senti em sua voz um pouco de aborrecimento, por ter contando minhas vantagens oculares, enquanto, ela, precisa de lentes com um grau bem alto, em decorrência da  miopia. Respondi-a que, não havia mais nada para falar ou comentar, era só aquilo mesmo. Sem falar da sua impressão pelo fato contado, a filha de Jorge me desejou uma boa sorte na poesia. E, que eu deixasse a crônica de lado, principalmente se, fosse para falar da Bahia. Ainda me disse que, um autor britânico já havia escrito tudo que pode existir. Todas as coisas que vier em seguida, haverão de ser imitação. O mesmo acontece com seu Pai e a BAHIA. Me senti passageiramente desmotivado e bravo, sem hesitar lhe desejei um falso boa e passar bem. 

Poupei-a contar a última observação deixada pelo beberrão que, acredito ter sido o próprio Jorge, em espírito, que viera me dizer: A Bahia havia mudado, mas que mudaria mais ainda. E, que talvez, tenha me ofertado o cargo de continuar a escrever sobre a cidade que os mais velhos dos interiores a chamam de Bahia ou cidade da Bahia. Acredito nisso sem vaidade. Tenho muito medo, se for. O que mais me assustou foi o fato de que, horas antes havia conhecido todo percurso editoral do livro e suas mudanças, em cada fase. Segundo os estudiosos, presentes na Academia de Letras da Bahia, no curso e colóquio Jorge Amado, o livro publicado em 1944, sofreu diversas, inúmeras modificações, alterações, nos textos e no volume. A justificativa do autor sempre foi de que a cidade estava em estado de mudança, o livro precisa se atualizar com ela, uma vez que, ele é um guia. A obra, A Bahia de Todos os Santos, ganhou e perdeu textos até quando Jorge teve tempo de vida. Depois disso, nunca mais. Não quero dizer com isso que, serei o próximo Jorge Amado. Mas me espantei com a observação feita pelo bêbado. As palavras de Paloma me entristeceram, por isso, não contei que por último o homem beberrão me disse:

- Esse povo estudado alguns são muito educado. Muito mesmo. Mas tem uns que, eu não sei, não. É pior do que gente ignorante. É uma estupidez danada. Nem eu, que não estudei, sou assim. Esse menino aí, lendo, não sei como consegue. ******** Onde estou? Este é meu ponto? É! ele afirmou. Meu ponto! ôôô.. motÔ! abre aí, namoral.... 

...Meu ponto chegou!!! 

Tiago Correia

palavras-chave: #jorgeamado - #bahiadetodososantos #palomaamado #cidadedabahia #crônica 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Bom dia, pessoal. 
Meu nome é fulano. 

Pessoal, estou aqui, humildemente vendendo meus doces. Pessoal, hoje é meu segundo dia vendendo nos ônibus. Acontece pessoal que, sou funcionário da construção civil,  mas, com a crise, fui demitido. 

Em casa, tenho filho e uma mulher para cuidar, levar o alimento com honestidade, e dignidade. 

Pessoal, estou passando esses pacotinhos, aceite-os, por favor! 

Em cada um, contém doces e tal.  - É sem compromisso!!!. Se vocês não puderem comprar, peço para Deus abençoar vocês, para que na próxima vez, tenham como colaborar. Quem não tiver os dois reais, para comprar o pacotinho de doces, mas que, mesmo assim, quiser me ajudar com alguma moedinha, ficarei muito grato. E, os amigos da construção civil que me reconhecerem, por favor, me ajudem. Inclusive, ontem, um colega me reconheceu no ônibus e me deu cinquenta reais. Mas, também, aceito qualquer moedinha. O importante é que seja de coração!

Ah, pessoal, meu pequeno (o filho) ficou em casa.  Ele queria vim comigo. Aí, me disse assim:

- OH, pai, deixa eu ir com você para te ajudar. 

Eu disse para ele:

Filho, você vai para Escola. Papai vai trabalhar. Vou ganhar o pão enquanto você estuda, certo? Eu trabalho. Você precisa estudar para ser um Homem estudado, ter uma profissão digna. Você vai ser o meu Doutor!

Não convencido, ele me disse:

- Então, papai, me deixe pelo menos grampear as embalagens, aí você conta para o pessoal que foi eu quem grampeou. 

Então, disse:

- Tá bom. Mas vou ficar do seu lado, para você não se ferir.

Concordando, ele me disse:

- Certo, papai.

Então, pessoal, tá vendo esse saquinho grampeado aí, foi meu filho quem grampeou. Ah, ele mandou dizer para vocês que, ''Deus vai abençoar cada um de vocês. E muito obrigado por ajudar ao meu pai".

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Enquanto o mais novo vendedor ambulante da cidade da Bahia vendia seus doces e contava do seu filho, fechei  cem anos de solidão e respirei fundo. Nesse tempo, fiquei parado escutando tudo e imaginando a cara de felicidade do menino grampeando embalagem por embalagem, tomando cuidado para deixar todas iguais. 

In: Transol 1386

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

mês passado, Ana Paula, minha amiga do ensino médio, me ligou me pedindo trezentos reais para pagar uma certa divida. como nos conhecemos à longa data e temos muitas histórias felizes para relembrar, peguei o carro e fui ao caixa eletrônico mais próximo de casa e saquei o dinheiro. uma hora e meia depois, ela já estava com o dinheiro em mãos. segundo o trato, ela me pagaria ontem, quarta-feira, entretanto, acabei de ver duas postagens de Ana Paula no facebook. uma dizendo que estava muito feliz, pois hoje o dendê vai ferver no circuito barra-ondina, e na segunda, uma foto com três abadás muito bem customizado. corri até o telefone e liguei a cobrar para a bonita da Paulinha Jurubeba*, apelido carinhoso. liguei a cobrar de sacanagem. ela atendeu e de cá do outro lado eu podia imaginar aqueles dentes de cavalo sorrindo. fui logo perguntando pelo dinheiro. a bichinha tratou logo de amansar e colocou logo uma vozinha doce, depois enfiou o rabinho entre as pernas e veio me contar que o salário estava atrasado e por isso não me pagou na quarta-feira. mas, que na quinta-feira, após o carnaval, ela me pagaria como sem falta, pois acreditava que nesse dia o seu salário já estaria na sua conta corrente do banco do brasil. engrossei minha voz, e ordenei que ela me esperasse no portão da casa dela, chegaria lá em cinco minutos para pegar os abadás. ela gaguejou, tentou inventar uma estória, mas demorou tanto que cheguei antes mesmo de qualquer desculpa. entrei, dei boa tarde para dona Tereza, sua mãe, outra caloteira. peguei as camisas e estou indo daqui a pouco para avenida. vou ver veveta, daniela e os filhos de bel marques, aqueles meninos que foram empurrados no axé.

tiagocorreia.