sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Família.

todos os dias a vila de pescadores que fica cem metros da janela do meu apartamento amanhece sempre igual. os homens negros e alguns poucos brancos já se amanhecem salvando sua rainha do mar. meu despertador sempre soa às cinco horas da manhã, para que eu não perca o atracar das embarcações, no pier.
na última noite do acontecimento que vou contar, aqui, não preguei os olhos. andei por quase duas horas sem parar dentro do meu apartamento, uma única vez fui até a garagem para pegar um livro que havia comprada na livraria do shopping, na tentativa de ganhar sono ao começar a lê-lo.
fui para janela do quarto no escritório e fiquei observando o mar refletindo as estrelas do céu, em sua pele fina d'água. de repente, uma mulher vestida de branco e manchada de vermelho se aproximou do velho saveiro e colocou com cuidado e um resto de amor humano um pacote embrulhado. de minuto em minuto o pacote se mexia, ardia em choro e acordou toda a vizinhança. os pescadores, ainda no mar, sentiram vontade de regressar e voltaram imediatamente, todos.
amarraram suas velas antes das quatro horas da manhã, com quase peixinho nenhum. o mais velho e talvez o maior sabedor de lendas, sentiu o choro desesperado ecoar dentro dos ouvidos acostumados ao barulho do mar. ouviu o grito de suplica de quem acabara de chegar ao mundo, na noite em que os Senhores das Leis do país que nascera lhe negara ter uma família.
o velho marinheiro do mar da baía do cavalo marinho, havia chorado um pouco antes, em frente a tevê. chorou com mais dor e fome que a criança que acabara de encontrar no abandono do amanhecer do dia.
triste por não poder levá-lo ao seu barracão de embarcações, onde ele morava desde a última década, quando sua esposa Almira faleceu, vítima de uma mordida de baleia. chamou a polícia e entregou o pacote.
da janela, anotei a série de números que identificavam o posto policial a qual pertencia aquele camburão. enquanto calçava o tênis de malhar, liguei para o Pedro, meu marido e lhe disse que estava indo buscar nosso filho, a Família iria aumentar, naquele dia. eu contaria para todos que em minha casa existe uma família de dois pais e um filho quase marinheiro. a casa ganharia barulho e o mar ao fundo iria cumprimentá-lo sempre que o visse.
cheguei no posto policial e disse ao delegado de menor que uma criança abandonada naquela noite ganharia um lar. seria feliz, pois teria uma legítima Família Feliz. o senhor delegado quis saber o nome da outra parte que acabara de chegar em casa do trabalho e me aguardava com a parte que aumentaria nosso amor. dei o nome do Pedro e o delegado suspirou fundo, me perguntou se eu não havia lido o noticiário da madrugada, se eu não havia conferido a nova lei da Família. respondi que não assisto telejornais desde o dia em que um repórter me matou com uma nota do maior jornal impresso do país.
Sentei junto aquele homem delegado e por cinco minutos ele me contou tudo que os Senhores da Lei combinaram na mesma noite em que o bebê fora abandonado, ao lado dum saveira. eu não poderia adotá-lo, pois aquela criança seria, segundo eles, infeliz, por não viver de acordo com a Lei do País.
Sem ter palavras para discutir, não disse nada ao delegado. Ele também era um coitado e sofria, pois em sua casa, a Família que ele construiu compunha de duas irmãs virgens, um filho e ele.
cheguei em casa em prantos. dois dias depois comprei blocos e cimento para fechar a janela do meu apartamento que dava para o mar. nunca mais iria olhar o mar do quarto do escritório, seria uma forma de tentar esquecer que num orfanato existe uma criança triste, que procura por amor, mas precisa esperar uma família configurada de um pai e uma mãe, para fazê-lo Feliz.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

a doutora chegou no céu de jaleco. ainda tonta com o estrondo da pólvora que, escapou da automática apontada para ela às seis da tarde. sem saber onde estava, ela me viu sentado numa pele de algodão, contando pedrinhas de diamante. e, assustada, perguntou, "onde estou?". olhei-a e percebi o desconhecimento com sua mudança de cenário. respondia que, "só há duas semanas que cheguei. mas aqui é o melhor lugar que se tem para ficar. tudo dá prazer. todos dizem "muito obrigado" ". sem saber o que significava o "aqui", ela me contou que, "estava na porta do prédio do namorado, mas que de repente, se deparou comigo, nesse lugar estranho.". abracei-a, segurei pelas mãos e a levei para conhecer o dono do mundo. agora, eles conversam, ela sorri abraçada com o irmão que fazia anos que não o via. acho que ela já deve saber que "aqui" é o céu.
hoje me ajudaram a carregar minhas compras. foi pela manhã numa feirinha perto de casa. comprei ingredientes para fazer uma sopa e cozinhar o feijão com prego. paguei noventa e cinco reais entre legumes, verduras e frutas. o moço da quitanda disse que os preços estavam mais elevados por causa da crise econômica. contei para ele que, o pé de abóbora, a bananeira e muito menos o pé de pimenta malagueta, crescem mais ou menos, por causa da crise. ele quis se justificar, mas lhe desejei bom dia e deixei o troco para ajudá-lo com à crise. os sacos estavam muito pesados, eram em setes; o da banana parecia rasgar. andei por cinco metros em malabarismo com cú no ponto para que não rasgasse. parei na sinaleira para atravessar, dois minutos depois, o sinal fechou e um rapaz bem magro, branco e de cabelo pintado de vermelho, correu e tomou cinco dos sacos das minhas mãos. assustado com a situação, disse-lhe "não precisa, querido". mas, logo, meu orgulho cessou e o rapazinho foi me seguiu até o nono andar do meu apartamento. chegamos, entramos, ele pôs os sacos em cima da pia e disse "já estou indo, tia!" e desejou "bom dia, para a senhora". do quarto, respondi, "espera aí". quando voltei, o magrelo já não estava e as moedas que acabara de catar no cinzeiro,para retribuí-lo, ficaram espalhadas por longos dias em cima da mesa. pelo visto, o garotinho, não estava vivendo à crise econômica que, o hortifrutigranjeiro estava sofrendo junto com país dele.