- Alô...
- alô!
- Telefonista, você pode me transferir para casa da filha de Jorge Amado?
A telefonista fez uma pausa na respiração e passados alguns segundos, pediu que esperasse que, iria transferir.
Quem atendeu ao telefone foi a empregada de Paloma Amado, filha de Jorge e Zélia. Dei boa noite à criada da casa e solicitei que chamasse sua patroa, Paloma.
- Querida, por favor, Paloma se encontra?
ela respondeu com voz fanha:
- Sim. SIM. Vou chamar.
Depois de cinco minutos, finalmente estava na linha com a filha de Jorge. E, sem cerimônia, fui atrevido e passei o monólogo que seu pai me fez, através de um beberrão que, só entrou no ônibus para me falar comigo.
- Querida, é o seguinte: Fui inventar de comprar o livro, Bahia de Todos os Santos, do seu pai. E, inclusive, nesta edição, da companhia das letras, vem com um posfácio seu, seguido de uma fotografia do Flávio Domm. Comprei essa nova edição após uma longa conversa com alguns estudiosos da obra, na Academia de Letras da Bahia. Lamentamos muito à sua ausência. Justificaram que você estava numa viagem, mas, pelo que parece, mentiram. Só que, isso, agora, não importa muito, não. Isso é papo para vadiagem, gente que perde à tarde inteira na porta de casa ou do vizinho, olhando quem passa na rua.
Do outro lado da linha, Paloma se sentava na poltrona do pai. Não adivinhei, mas o barulho do almofado afundando com o peso do corpo me deu essa sensação. Pude imaginar a poltrona de jorge estourada com o calor da cidade da Bahia, mas conservada, para nunca mexer na presença deixada, na casa, por seu pai. A respiração de pouca paciência e de que estava deixando uma série de afazeres sem fazer, para me atenção, me deu um desconforto, por saber que, incomodava.
Sem querer me prender nisso... continuei, dizendo-a:
- Enquanto folheava as primeiras páginas do livro e lia a carta de recomendação com uma linda dedicatória para sua mãe, Zélia, entrou um beberrão, desses que só vai em botecos que conservam a arquitetura antiga dos bares da cidade: Uma pilha de caixa de coca-cola em cada lado da entrada da porta e um tira de madeira, fazendo de bolcão. Ele, o beberrão, deu mão ao ônibus que, me levava para casa, e, entrou de grátis*. Imagino que, o bêbado seja um velho conhecido do motorista, para ter tanta moral, assim. Havia muitos assentos desocupados, alguns, com janelas livres e tudo. Porém, a missão dele era falar comigo. Enquanto lia a carta, ele se aproximou e sentou ao meu lado. Lançou o olhar às páginas do livro e quase me tocando, disse:
- É. A Bahia ainda vai mudar muito. MUITO - enfatizou -. As coisas mudaram. Tudo tá muito diferente do que era antes. Esse negócio de tecnologia tá acabando com a Bahia. Tempos atrás nada era assim. Até os ônibus estão mudados. Antes, os nomes das empresas eram bonitos, tinha um sentido, representava. Hoje, nada. Repare. BTU, Axé, Transol, Rio Vermelho, Praia Grande... Agora, colocaram o nome de Integra. ruum... Integra. Já se viu... E, pior é que tudo vai mudar mais ainda.
- Paloma, querida, nesse instante, sabendo de toda tragédia editorial que, o livro passou, até a última edição. Imaginei que, ali não fosse um bêbado, mas seu pai, me dizendo algo. Compreendi que, quem agora, deveria cuidar da cidade, era eu. Se você não sabe, escrevo poesia, e vez ou outra, escrevo uma crônica para compartilhar com alguns bons e velhos amigos. Nada demais.
A respiração funda de Paloma poderia ser escutada sem precisar encostar o ouvido no aparelho telefônico. Imaginei que, neste momento, o almofado em que ela estava sentada, era forçado a redistribuir as espumas francesas, da poltrona, para se adequar ao peso. Pude escutar, também, a criada perguntando se o arroz era com ervilha ou sem. Acredito que, não houve resposta da patroa, por educação, com quem estava na linha do telefone. Ela, estava consciente, agora, da importância e significado fugaz que eu ganhara, naquele instante. Depois do telefone desligado, algo me dizia que, ela, pensara ser um trote e deixara de pensar; continuaria a escrever o protejo ilustrativo que mandaria via sedex ao Bel Borba.
Continuei contando o caso e, antes mesmo de finalizar a ligação, fiz um comentário desnecessário, mas, que, minha vaidade de leitor não deixou passar. E disse-a que, o bêbado até comentou sobre minha dedicação em ler à noite. E que, ele, havia se queixado da letra miudinha, do livro. Confessou não ter a mesma potência de visão de quando tinha minha idade. O beberrão não sabia quantos anos de fato tenho, mas concorda que tenho muito menos que a dele.
Do outro lado da linha, Paloma perguntou se eu tinha algo mais para contar. Senti em sua voz um pouco de aborrecimento, por ter contando minhas vantagens oculares, enquanto, ela, precisa de lentes com um grau bem alto, em decorrência da miopia. Respondi-a que, não havia mais nada para falar ou comentar, era só aquilo mesmo. Sem falar da sua impressão pelo fato contado, a filha de Jorge me desejou uma boa sorte na poesia. E, que eu deixasse a crônica de lado, principalmente se, fosse para falar da Bahia. Ainda me disse que, um autor britânico já havia escrito tudo que pode existir. Todas as coisas que vier em seguida, haverão de ser imitação. O mesmo acontece com seu Pai e a BAHIA. Me senti passageiramente desmotivado e bravo, sem hesitar lhe desejei um falso boa e passar bem.
Poupei-a contar a última observação deixada pelo beberrão que, acredito ter sido o próprio Jorge, em espírito, que viera me dizer: A Bahia havia mudado, mas que mudaria mais ainda. E, que talvez, tenha me ofertado o cargo de continuar a escrever sobre a cidade que os mais velhos dos interiores a chamam de Bahia ou cidade da Bahia. Acredito nisso sem vaidade. Tenho muito medo, se for. O que mais me assustou foi o fato de que, horas antes havia conhecido todo percurso editoral do livro e suas mudanças, em cada fase. Segundo os estudiosos, presentes na Academia de Letras da Bahia, no curso e colóquio Jorge Amado, o livro publicado em 1944, sofreu diversas, inúmeras modificações, alterações, nos textos e no volume. A justificativa do autor sempre foi de que a cidade estava em estado de mudança, o livro precisa se atualizar com ela, uma vez que, ele é um guia. A obra, A Bahia de Todos os Santos, ganhou e perdeu textos até quando Jorge teve tempo de vida. Depois disso, nunca mais. Não quero dizer com isso que, serei o próximo Jorge Amado. Mas me espantei com a observação feita pelo bêbado. As palavras de Paloma me entristeceram, por isso, não contei que por último o homem beberrão me disse:
- Esse povo estudado alguns são muito educado. Muito mesmo. Mas tem uns que, eu não sei, não. É pior do que gente ignorante. É uma estupidez danada. Nem eu, que não estudei, sou assim. Esse menino aí, lendo, não sei como consegue. ******** Onde estou? Este é meu ponto? É! ele afirmou. Meu ponto! ôôô.. motÔ! abre aí, namoral....
...Meu ponto chegou!!!
Tiago Correia
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