Minha mãe deveria ter uns oito anos quando resolveu vender o carneiro mais velho do seu rebanho. Era uma sexta-feira de sol quente no interior do interior de Amargosa, num lugarejo chamado Itachama. Foi neste pedaço do mundo em que minha mãe cresceu e se casou, antes de vir morar na Bahia – como diz minha avó ao se referir a Salvador. Mas foi um dia antes, na quinta-feira, que minha mãe assistindo ao carneiro comendo uns miúdos de capim seco, que teve a ideia de mandar matá-lo. O verão já havia começado por aquelas bandas, com isso, ficaria caro sustentar com ração o rebanho. Matando um, além de ganhar um trocado, os gastos diminuiriam. Além disso, o carneiro que iria ao abate já estava velho, demorando mais um pouco, a cota de dias dele no mundo acabaria. Então, ao contrário de ganhar um tostão com o animal criado com cuidado e vigia, para que as cascavéis ou as jararacas não o matassem, teria prejuízo. Da varanda da casa antiga, minha mãe saiu e gritou meu avô, pedindo para que arranjasse um homem que pudesse matar o carneiro no dia seguinte. No entardecer da noite, chegou à porta de casa seu Nequinho, um moço bom e que todos chamavam para tratar desses assuntos – matar animal para vender na feira. Bateram uma prosa sobre o carneiro, sobre o lobisomem que andava assustando o povo pelas madrugadas e até sobre a beleza da lua naquela noite, tudo isso, enquanto tomavam uma xícara do café colhido no roçado atrás da casa. N’outro dia, lá pelas duas da tarde, montando num jegue brabo, Nequinho chegou carregando nos lados da calça uma espingarda com uma bala de tiro, uma foice, um facão meio afiado e uma faca de porte pequeno. Minha mãe, nesse dia, amanheceu meio triste, pois havia sonhado que o carneiro não queria morrer. Estava com mau pressentimento e comentou com minha avó que achava que não deveria matar o pobre animal, o mais velho do rebanho, consequentemente, o seu primeiro bicho. Mas, minha avó, a repreendeu, dizendo-a que deixasse de bobagem e não se apegasse ao carneiro. Era a hora dele, se ela não o matasse para vender, a morte viria de qualquer forma, e fez até questão de lembra-la da vez que o mamífero ficou todo amolecido dum dia para o outro. Foi preciso levá-lo até uma moça de reza para que o mau olhado saísse e ele pudesse se revigorar. Dias se passaram e o bicho foi pego por minha mãe fazendo ousadia atrás da casa. Ela se escondeu no meio dum pé de araçá para ver sua criação no ato de procriação, eram os negócios expandindo-se e a felicidade pela certeza de que estava fazendo uma boa escolha, criar animais. Desse dia, nasceram dois carneirinhos, que fizeram parte do rebanho. Minha mãe ao vê-los nascer saiu gritando para toda parentada, e resolveu ser mãe deles nos primeiros dias. Por causa disso, os bichos cresceram e viviam atrás dela. A mãe deles morreu três meses depois do nascimento dos dois. Talvez, eles pensassem que minha mãe era a deles. Seu Nequinho desceu do jegue, perguntou por minha mãe e já foi afiando a faca miúda no batente da casa, para deixa-la afiada e tirar os gomos cegos. Do estábulo, saiu meu avô puxando o carneiro que berrava. O bicho estava sentindo a morte. Logo que percebeu que a faca estava no ponto de matar, a morte chegou e ficou zombando do bicho, rindo da cara dele, por saber que ela não faria nenhum esforço para arrancá-lo da vida, sequer usaria à foice que carrega consigo para cima e para baixo. Ela sentou numa pedra quente, cruzou as pernas, fez pose e ria do animal que berrava. Minha mãe, uns metros distantes do Nequinho ao ver o carneiro arregalando os olhos para ela, gritou que parasse, ela não queria mais que o matasse. Nessa hora, a morte se levantou da pedra e ficou de pé, olhando com cara de indignada para minha mãe. Minha avó entrou em cena e ordenou-a: - Entre, agora, sua besta! - e puxou-a pelo braço, indicando a direção da porta de casa. Sem poder questioná-la, entrou, mas antes, olhou para o carneiro, enquanto ele berrava sem parar como quem pedisse por piedade e misericórdia. De costas, minha avó gritou: - Mate logo esse diabo, Nequinho! - Nesse instante, a morte bateu palmas, comemorando, se aproximou e ficou na beira do carneiro, enquanto ele olhava torto para ela. Nequinho enfiou a faca amolada no pescoço e antes mesmo do sangue tocar no chão, a morte puxou a alma do carneiro e se mandou correndo com ela. O animal se calou, e o corpo tremeu por minutos como quem ainda suportasse viver, enquanto morria. Ao sentir o silêncio pairar no roçado e o luto se manifestar naquele momento, minha mãe correu para fora e encontrou o bicho com metade do couro arrancado e um rio de sangue escorrendo pelo gramado da casa velha.
Texto: Tiago Correia.
ps. Este conto aconteceu na década de 70, mas só pode ser escrito no ano 16 do século XXI. Dedico à minha mãe, minha poesia e meu amor.