Não poderia pensar que a moça sentada à minha frente no assento do coletivo iria me tirar o fôlego por quase um minuto inteiro. Logo eu, que acabara de entrar no ônibus um pouco antes dela, na estação de transbordo, ocupado, com o pensamento na reunião e nas aulas do dia. O ônibus parado numa das muitas sinaleiras com sinal vermelho adiava minha chegada à universidade. Não imaginaria que a obediência do motorista do coletivo em parar no sinal vermelho daquela vez poderia me causar aflição. Em voz baixa, dentro do ônibus, a moça que sentava à minha frente, soletrou devagarinho a palavra CA-QUI. A vendedora de morangos, que caminhava com sandálias brasileiras no chão quente do asfaltando, segurando uma caixa de papelão e de avental branco com uma margem verde foi capaz de ouvir. Rapidamente, deu sinal ao seu companheiro de vendas que caminhava distraído entre os veículos. Eles aproveitavam o tempo parado para vender morangos e caquis, enquanto os passageiros e condutores faziam caras de paisagem ou remexiam nos celulares ou na bolsa procurando um chiclete ou a agenda com um compromisso marcado às quinze horas. A moça que sentava no banco da minha frente, indagou o preço do Caqui, o vendedor respondeu-a prontamente que eram seis por dez reais. Ela, disse que não, que deixasse para mais tarde. Mas, nunca iria existir o mais tarde para comprar os caquis. O vendedor resolveu fazer uma promoção instantânea, abriu imediatamente um processo promocional e o deferiu na mesma hora na vigésima vara das promoções para passageiros de coletivos que chamam um vendedor de caquis. Então, estava decretada naquele momento à promoção de quatro por cinco - Quatro caquis por cinco reais -. A promoção era oficial e qualquer um poderia comprar caqui naquele momento com aquele vendedor naquele valor. A moça, aceitou e emitiu para si própria uma notificação sobre a compra dos caquis no juízo de compras e ofertas aceitas enquanto a sinaleira está fechada. Ela, arrancou dez reais do bolso e pediu cinco de troco ao vendedor. Mas, infelizmente, ele não tinha. Naquelas palavras de negação de não ter o trocado para devolver a moça, tive uma crise de nervoso. O sinal já estava para mais da metade do tempo em vermelho, logo abriria, o ônibus arrastaria e toda a performance se perderia. Minha maior preocupação era com minha aflição, minha decepção em ver a cena e os deferimentos rápidos serem jogados fora, desperdiçados. O vendedor chamou a vendedora de morangos para um empréstimo de urgência, negociou em poucas palavras e logo recebeu a autorização por ela mesmo de ter em mãos cinco reais para devolver o troco à moça do ônibus que havia batido o martelo com os quatro caquis por cinco reais. As cédulas de reais saíram e entraram pela janela, assim como o produto em negociação. E, eu, sentado atrás da moça, assisti tudo. Após o fechamento do negócio com a moça do ônibus, o vendedor seguiu entre os carros importados que circulam nos bairros da Federação e Ondina e a moça agradeceu e incluiu o nome de Deus no meio para que Ele abençoasse o vendedor e o dia dele. Eu, fiquei rindo da minha situação e do meu medo de tudo, enquanto o ônibus arrastava, deixando a sinaleira para trás.
Texto: Tiago Correia.
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