meu filho, eu sei que tu só sabes escrever na madrugada, quando a casa inteira estala seus detalhes e ninguém mais ronda os cômodos. mas não te esqueças que é neste momento em que durmo, preciso descansar o corpo que dia corre os fins do mundo para te trazer o pão de cada dia. se tu amas de verdade essa sua coisa estranha de criar mundos com as mãos, aprenda a enxergar nos escuros. meu filho, quando durmo, só consigo me aprofundar nas fases do sono com as luzes da casa, apagadas. qualquer matéria luminosa ao meu redor, durante o sono, penso ser o sol, e, é, o sol quem me acorda para viver uma nova batalha. se tu, meu filho, que perde o momento de dormir para ficar na frente da sua máquina de escrever, da sua máquina de fazer mundos, de criar indizíveis, de desenhar com palavras os quadros mais lindos do mundo da arte literária, então, meu filho, engula o choro, abra teus olhos grandes, e aprenda a ser escritor no escuro. aprenda a escrever sem precisar de luz. se tu, romper com toda essa escuridão, e um dia enquanto cruzar as ruas, uma criança te olhar, querendo dizer com os olhos inocentes que já te leu, neste instante, acredite, meu filho, as noites na escuridão valeram muito. enquanto este teu momento não acontece, apague as luzes da sala e do seu quarto, preciso dormir. não demore muito aí sentado. cuidado com sua coluna, lembre-se são muitos parafusos te prendendo na vida. deus abençoe.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
o vendedor de água entrou no ônibus em que eu estava. entrou pela porta de saída. usava uma bolsa de lado e boné para proteger do sol. começou anunciar água mineral por um real em copo e por dois reais em garrafa. começou anunciar seu produto de qualidade - água mineral. e disse mais: " a situação está complicada, são sessenta e tantos bairros em salvador sem água. tá barril ficar dois dias sem tomar água. eu sei que é muito complicado ficar em casa e não ter água nem para beber... mas não se preocupem. vocês vão beber água, agora. em casa não tem água, mas no ônibus você encontra e é na minha mão que vocês poderão comprar. olhe, pessoal, estou passando, eu sei que o calor está de matar. é muito calor. e ainda temos sessenta e tantos bairros sem água. em casa vocês estão sem água, mas no ônibus vocês encontram...(ele reforçava o argumento.)." . o vendedor anunciava seu produto, enquanto me dirigia até a porta do desembarque. na minha frente, um rapaz jovem olhava o vendedor anunciando o produto, enquanto eu não conseguia segurar o riso da cena cômica e trágica. o rapaz não ria. estava sério e com ódio. talvez, com ódio de mim. e quanto mais eu ria, com mais cara de ódio ele ficava. os outros passageiros nem prestaram muito atenção no vendedor, alguns conversavam, outros babavam e um rapaz alto e bonito que acabara de entrar no ônibus, tentava encaixar sua bunda no último assento disponível no ônibus com itinerário - lapa. precisei descer do ônibus e abandonar o vendedor de água.
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