quinta-feira, 29 de outubro de 2015

meu filho, eu sei que tu só sabes escrever na madrugada, quando a casa inteira estala seus detalhes e ninguém mais ronda os cômodos. mas não te esqueças que é neste momento em que durmo, preciso descansar o corpo que dia corre os fins do mundo para te trazer o pão de cada dia. se tu amas de verdade essa sua coisa estranha de criar mundos com as mãos, aprenda a enxergar nos escuros. meu filho, quando durmo, só consigo me aprofundar nas fases do sono com as luzes da casa, apagadas. qualquer matéria luminosa ao meu redor, durante o sono, penso ser o sol, e, é, o sol quem me acorda para viver uma nova batalha. se tu, meu filho, que perde o momento de dormir para ficar na frente da sua máquina de escrever, da sua máquina de fazer mundos, de criar indizíveis, de desenhar com palavras os quadros mais lindos do mundo da arte literária, então, meu filho, engula o choro, abra teus olhos grandes, e aprenda a ser escritor no escuro. aprenda a escrever sem precisar de luz. se tu, romper com toda essa escuridão, e um dia enquanto cruzar as ruas, uma criança te olhar, querendo dizer com os olhos inocentes que já te leu, neste instante, acredite, meu filho, as noites na escuridão valeram muito. enquanto este teu momento não acontece, apague as luzes da sala e do seu quarto, preciso dormir. não demore muito aí sentado. cuidado com sua coluna, lembre-se são muitos parafusos te prendendo na vida. deus abençoe.

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