sábado, 14 de novembro de 2015

Eu tinha as moedas que o menino de sete anos me pediu para comprar café com pão. Mas neguei os dois contos ao menino de sete anos que não tem pai nem mãe.
Ao virar à esquina da rua entrei no MC D. e paguei vinte contos por um quarteirão e adicionais que a caixa chamou de promoção. Comi a carne amarga do sanduíche Norte Americano como se fosse espinhos cortando minhas cordas vocais. O refrigerante serviu como uma correnteza que levou o que me cortava para dentro do estômago. Quando terminei, arrotei um bafo fedido e não me satisfiz. Dentro de mim havia algo me cortando.
Levantei e deixei a franquia Americana com um papel toalha secando minha mão. Atravessei a pista sem sequer olhar os lados da rua. Tive medo de avistar o menino de sete anos dentro duma lata de lixo ou assaltando para conseguir dois reais que não me fariam falta naquela manhã de domingo.
Abri a porta do meu apartamento e encontrei meu lar me esperando com um recado da minha mãe na secretária eletrônica, enquanto meu cachorro vira-lata lambia minha perna. Minha mãe dizia que o almoço do domingo seria reunião de família e amigos e que eu poderia convidar os meus conhecidos.
Fui para o banho com o garoto na cabeça, as palavras dele e o meu “não” sem som, com o olhar.
A cena do menino me dando as costas com uma das mãos balançando um pedaço de galho seco, cravou no meu peito e feriu. Neste instante, ele já devia ter mais fome.
Preparei a mochila, arranquei o aparelho celular do carregador e desci os degraus das escadas me odiando e com mil planos na mente.
Abri o portão do prédio e fui correndo em direção à esquina do Fest Food. O menino estava lá. Ainda tentava encontrar alguém para lhe pagar o café da manhã. Puxei-o pelo braço. Chorei aos pés dele e pedi perdão. Implorei que me perdoasse por negá-lo. Sem entender, me perguntou:
- O que fiz, Tio?
Não lhe disse nada e pedi que me acompanhasse.
Bati na casa da minha mãe e recomendei que desse ao garoto pão e café com leite. Antes, levei-o ao banho. E vesti com roupas da minha meninice. Enquanto o sol chegava ao centro do céu, o menino se fartava com os pães frescos e torrados com manteiga e queijo mozarela.
Os convidados foram chegando e as crianças dentro da timidez se conservavam nos primeiros cinco minutos. A mesa do almoço foi posta às quatro da tarde. Naquele dia, o menino de sete anos foi o primeiro a ser servido, foi o convidado especial do dia. E o domingo acabou com ele sonhando na minha cama de criança. E até hoje, dez anos depois, essa cena se repete.

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