sábado, 14 de novembro de 2015

no último sábado, tive um apresentação e uma entrevista no pelourinho. quando marquei os dois compromissos dei o espaço de duas horas entre um e outro. por ter acordado às onze da manhã, atrasei, no primeiro. corri para o ponto e logo peguei o primeiro transporte. sentei no último assento livre do ônibus. ao meu lado direito, um rapaz negro, suado e com um balde vazio com cheiro de sardinha. na cadeira da frente, outro rapaz compondo as mesmas características do que estava ao meu lado. dois rapazes negros, suados e que levavam em seus bolsos uns trocados que se transformariam em leite, pão e alguma outra coisa que cabece. certamente, em casa, uma mulher aguardava cheia de esperanças pelos trocados junto com alguns filhos enfeitados com barrigas d'águas, barriga de quem tem fome, mas fingi não tê-la, para continuar sorrindo do mundo e da tristeza. do outro lado, no esquerdo, uma senhorita, uma menina, uma cidadã corajosa, um ser humano que deu a cara à tapa. o cabelo artificial era maior que o meu quando solto, a pele negra estava coberta duma saia média de algodão e um blusa preta com alguns detalhes em prata. uma menina corajosa, que não se rendeu às intolerâncias, uma mulher que ultrapassou a rejeição de quem acredita ser dono do universo, dono das leis. uma garota que não se desesperou quando percebeu que alguns olhares a cruzavam, e algumas dezenas de dedos apontavam entre cochichos e risos de chacotas. do lado dela, minha vontade de abracá-la e dizer que seguisse no caminho em que ela se sentisse bem, feliz e sendo verdadeira consigo mesma. mas, não a disse. talvez, por covardia ou por medo de não ser compreendido. mesmo com tanta coragem. nos quinze minutos do meu ponto até à estação de ônibus ela não sequer levantou os olhos uma vez. muito provavelmente, não queria perceber os olhos de mais da metade dos passageiros lhe detalhando, comentando sobre ela. chegada à estação, desci na frente e evitei ser mais um que a olhava. por passar do horário combinado, corri para o ponto de espera. os dois compromissos me aguardavam, já estava dez minutos atrasado. passado alguns instantes, a menina que veio ao meu lado dentro do ônibus, chegou na fila em que eu estava e logo perguntou:
- este ônibus passa na liberdade?
respondi:
- sim.
e neste instante, entendi, ela estava ali, pois vivia em liberdade, e quem conhece o gosto dela, compreende que é preciso ser livre e feliz

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