Dona Maria casou-se com Jorge Peixada um dia após completar vinte anos de idade. Em seu tempo, seu Jorge precisou conquistar a confiança do seu Antônio Barbeiro, para se aproximar de Dona Maria, que naquele tempo de moça era conhecida como - Mar da Flor. Foi num dia de muita chuva na roça no município de Amargosa, no interior da Bahia, que Jorge viu sua futura esposa pela primeira vez.Ela lhe trouxe uma toalha que o pai, seu Antônio, havia ordenado. Sem olhar nos olhos de Jorge, ela entregou-a e saiu desparada para o quarto. Trancou a porta, pois havia sentido algo estranho naquele pouco tempo em que estiveram próximos, pela primeira vez. Da fechadura da porta, viu Jorge tirar a camisa e enxugar o corpo gordo. Para Mar da Flor foi uma descoberta incrível, pela primeira vez havia visto um homem sem camisas. Nem o próprio pai ficava sem camisa pela casa. Jorge fora o primeiro que ela vira. Os dias foram se passando e Mar da Flor não pensava em outra coisa. Deixou o arroz carreteiro queimar duas vezes. O leite da vaca não foi tirado durante uma semana. Ela passava as noites em claro, sonhando acordada e não conseguia levantar às cinco horas da manhã. Passou uma semana quase adoentada, perdeu três quilos e não queria ir mais para escola, lugar que ela mais adorava ir, antes de conhecer Jorge. Quando ia, a lição era escrever o nome de Jorge por toda caderneta. Certo dia, voltando para casa, Jorge passou amontado num jegue. E perguntou para onde ela estava indo. Respondeu timidamente que - para casa. Impulsivo, Jorge ofereceu carona em sua garupa. E foram juntos até na ladeira do Cavaco, ela desceu e agradeceu pela carona. E ele disse - pela gentileza da toalha. Seis meses se passaram e os dois repetiram o ritual todos os dias, até aos domingos, quando Mar da Flor ia no túmulo da cadela Zetinha. A coitada morreu picada por uma surucucu. Era tarde da noite e a serpente conseguiu entrar na casinha da Zetinha. Entrou só para picar. Os latidos de dor e sofrimento acordaram os pais de Maria e ela, que saiu desesperada para ver o que havia acontecido. O último suspiro de dor fora nos braços de Mar da Flor. A cobra no alto do cajueiro sacudiu os galhos para avisá-los quem tinha feito o serviço. Eles a viram e ela rapidamente deu-se a rastejar e desaparecer das vistas. Na manhã seguinte, Zetinha ganhou velório, samba de roda, comida e bebedeira. O enterro aconteceu às cinco da tarde, no sol se por. Desde então, Mar da Flor vai no alto do cavaco deixar as flores prometidas. Durante todos os seis meses, nunca aconteceu um beijo. Eles se fizeram amigos, conheceram os gostos e os desagrados. Num dia do mês de Santana, Jorge entrou no casario em que Mar da Flor morava com os pais e ajoelhado em frente da moça, pediu-a em casamento. Os pais que já haviam percebido as mudanças ocorridas desde o dia em que Jorge entrou na casa todo molhado da chuva, concordaram com o pedido. Mandaram avisar aos parentes de longe que Mar da Flor, a única filha do casal, iria casar. No dia da festa do Bom Jesus da Lapa, Jorge Peixada e Mar da Flor, casaram-se. Vivem felizes, apesar das brigas quando falta Broa e Beiju no café da manhã. Há sessenta anos eles dividem os dias. Tiveram onze filhos, treze netos e sete bisnetos. E vez ou outra se perguntam a quem o neto Ruan de 19 anos puxou. A pergunta vem sempre após a despedida do garoto. Eles não entendem bem e não fazem questão de entender por qual motivo o garoto, passando o dedo numa tela, mostra com orgulho as meninas que ele tá querendo pegar, as que já pegou e as que ele chama de Dragão.
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