Painho todos os dias desce o rio para pescar. Mãe alevanta quatro da manhã, passa o café e o chama para ordenhar a vaca Flora. Quatro e meia eles se despedem e mãe começa a jogar o milho das galinhas. Do estábulo ela grita que já é hora de me alevantar, pois o ônibus do colégio vai passar. Me alevanto meio zonzo, com a boca de baba e os olhos cheinhos de remelas. Escovo os dentes e me visto sem tomar banho. Esquento o leite e bebo com dois cream crack. Não podemos comer mais de dois, pois é a conta certa da casa. A feira só acontece nos sábados e se a gente comer demais um dia vai ficar em falta. Do quintal, mãe me grita dizendo ouvir o transporte se aproximar. Apanho o caderno e a caderneta de notas e desço o morro em disparada. Dois minutos depois chego ao mata burro e espero. Na espera do trem do ônibus, avisto uma surucucu no alto do pé de jaca. Tenho medo da diaba. Fico longe e atento. Dou um grito para mãe e aviso que a diaba está por perto. Ela responde com um som doce para confirmar que me ouviu. A diaba, também, me escuta e muda de galha. São quase seis da manhã e em pouco instante seu Deraldo deve passar. De longe, avisto painho vindo com a farrapa, a bolha e a vara de pescar.
Painho, Seu Francisco, vem triste, com lágrimas nos olhos. Corro para encontrá-lo e o homem da minha vida me abraça. Nunca havia sentido tanta dor no abraço de alguém. Nos olhos dele corriam lágrimas de sangue, não eram só de dor ou tristeza, era por mais e bem maior. Voltei para casa com ele e esqueci a escola e a surucucu que me viajava no pé de jaca. Na certa, a diaba pensou que voltei para casa com medo dela. Mas não era. O motivo era o rio de sangue correndo nos olhos de painho. Chegamos em casa, ele entrou, jogou as ferramentas na sala e voltou para o batente da casa, se aquietou no canto e deu a ficar cabisbaixo. Tempo depois, chamou mãe e lhe contou o que viu:
- Mataram o Rio, Tereza! Os peixes estavam sem forças e muitos me pediram socorro, nada pude fazer. Mataram, também, os pés de bananeira, a jaqueira e outro bocado de planta do mato.
Painho deu a chorar o dia inteiro, não tinha remédio e palavra para consolar. Deitou-se no banco da sala e feito criança não se acalmou. Mãe até chamou o doutor da cidade, mas o diagnóstico foi:
- É tristeza! Só Deus pra curar.
E painho ficou amuado no canto da casa sem querer comer ou beber. Passaram-se dias ele permanecia no canto da casa. O homem, que não era mais meu pai, começou a definhar, perdeu todo cabelo da cabeça e os pelos do braço. Ficou irreconhecível. Mãe fazia uma papa com farinha de guerra e leite da vaca Flora para ele comer. Ele apenas beliscava com duas ou três colheradas, nada, além disso.
Nossa casa foi ficando vazia, o barulho se calou, só não o choro moído de dor de painho, que mesmo morrendo ainda tinha lágrimas. Numa madrugada de Santana, deu a chover muito com relâmpagos e trovões. Painho dormia no pé da mesa, na minha cama. Por isso, mudei de quarto e passei a dormir com mãe. Foi preciso, pois nunca mais ele quis sair do canto da sala. Chamamos o senhor polícia e o corpo de bombeira da cidade, nada adiantou. Só uma promessa de que tentaria ir para o quarto. E naquela madrugada em que o pé d'água não se aquietou, painho se foi e nos deixou.
Ele morreu com o rio, só não morreu na hora que viu a cena, pois precisava agonizar como os peixes agonizavam. Na cabeceira da cama, encontramos um bilhete em garranchos, dizendo: Lancem-me no rio.
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