segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Painho todos os dias desce o rio para pescar. Mãe alevanta quatro da manhã, passa o café e o chama para ordenhar a vaca Flora. Quatro e meia eles se despedem e mãe começa a jogar o milho das galinhas. Do estábulo ela grita que já é hora de me alevantar, pois o ônibus do colégio vai passar. Me alevanto meio zonzo, com a boca de baba e os olhos cheinhos de remelas. Escovo os dentes e me visto sem tomar banho. Esquento o leite e bebo com dois cream crack. Não podemos comer mais de dois, pois é a conta certa da casa. A feira só acontece nos sábados e se a gente comer demais um dia vai ficar em falta. Do quintal, mãe me grita dizendo ouvir o transporte se aproximar. Apanho o caderno e a caderneta de notas e desço o morro em disparada. Dois minutos depois chego ao mata burro e espero. Na espera do trem do ônibus, avisto uma surucucu no alto do pé de jaca. Tenho medo da diaba. Fico longe e atento. Dou um grito para mãe e aviso que a diaba está por perto. Ela responde com um som doce para confirmar que me ouviu. A diaba, também, me escuta e muda de galha. São quase seis da manhã e em pouco instante seu Deraldo deve passar. De longe, avisto painho vindo com a farrapa, a bolha e a vara de pescar. 

Painho, Seu Francisco, vem triste, com lágrimas nos olhos. Corro para encontrá-lo e o homem da minha vida me abraça. Nunca havia sentido tanta dor no abraço de alguém. Nos olhos dele corriam lágrimas de sangue, não eram só de dor ou tristeza, era por mais e bem maior. Voltei para casa com ele e esqueci a escola e a surucucu que me viajava no pé de jaca. Na certa, a diaba pensou que voltei para casa com medo dela. Mas não era. O motivo era o rio de sangue correndo nos olhos de painho. Chegamos em casa, ele entrou, jogou as ferramentas na sala e voltou para o batente da casa, se aquietou no canto e deu a ficar cabisbaixo. Tempo depois, chamou mãe e lhe contou o que viu: 

- Mataram o Rio, Tereza! Os peixes estavam sem forças e muitos me pediram socorro, nada pude fazer. Mataram, também, os pés de bananeira, a jaqueira e outro bocado de planta do mato. 

Painho deu a chorar o dia inteiro, não tinha remédio e palavra para consolar. Deitou-se no banco da sala e feito criança não se acalmou. Mãe até chamou o doutor da cidade, mas o diagnóstico foi: 

- É tristeza! Só Deus pra curar. 

E painho ficou amuado no canto da casa sem querer comer ou beber. Passaram-se dias ele permanecia no canto da casa. O homem, que não era mais meu pai, começou a definhar, perdeu todo cabelo da cabeça e os pelos do braço. Ficou irreconhecível. Mãe fazia uma papa com farinha de guerra e leite da vaca Flora para ele comer. Ele apenas beliscava com duas ou três colheradas, nada, além disso. 

Nossa casa foi ficando vazia, o barulho se calou, só não o choro moído de dor de painho, que mesmo morrendo ainda tinha lágrimas. Numa madrugada de Santana, deu a chover muito com relâmpagos e trovões. Painho dormia no pé da mesa, na minha cama. Por isso, mudei de quarto e passei a dormir com mãe. Foi preciso, pois nunca mais ele quis sair do canto da sala. Chamamos o senhor polícia e o corpo de bombeira da cidade, nada adiantou.  Só uma promessa de que tentaria ir para o quarto. E naquela madrugada em que o pé d'água não se aquietou, painho se foi e nos deixou. 

Ele morreu com o rio, só não morreu na hora que viu a cena, pois precisava agonizar como os peixes agonizavam. Na cabeceira da cama, encontramos um bilhete em garranchos, dizendo: Lancem-me no rio.

sábado, 14 de novembro de 2015

na minha última noite de sono, sonhei que Caetano e Gil faziam o show da turnê deles, exclusivamente para mim. era uma delícia. mas, de um instante para outro, não eram mais eles dois e seus violões, para me agradar; era minha radiola deixando escapar o encanto, e a música vinha duma rádio dessas que tocam música popular brasileira. na cama, sentia eles dois me invadindo com suas letras de músicas, seus eclipses ocultos, seus homens, seus com fé e a pé, com seus linhos. mesmo escutando-os numa radiola velha, me senti completamente privilegiado, eram os dois, as duas figuras da música brasileira que mais me agradam, que mais me encantam e seduzem. era um sonho e dos melhores e por ser bom, ele fora interrompido. um novo sonho se jogou por cima, como se fosse um pano cobrindo o ouro, escondendo o diamante. no novo sonho, um galo negro subiu na minha cama, ficava bem na quina, e eu ainda querendo permanecer com caetano e gil, batia valente as pernas para tanger o galo preto que invadia meu sonho baiano e doce bárbaro. de repente, o galo desapareceu e surgiu uma peça de lego. a peça, andava debaixo do lençol e corria me fazendo cócegas. para tentar escapar do pesadelo, acordei rindo, quase mijando, ainda sentindo a peça de lego me fazendo cócegas. quando arregalei os olhos, havia um galo negro na esquina da minha cama. na verdade, ele ainda permanece nela. e eu tenho medo de voltar para dormir e ele me picar ou morder. galo pica ou morde?
no último sábado, tive um apresentação e uma entrevista no pelourinho. quando marquei os dois compromissos dei o espaço de duas horas entre um e outro. por ter acordado às onze da manhã, atrasei, no primeiro. corri para o ponto e logo peguei o primeiro transporte. sentei no último assento livre do ônibus. ao meu lado direito, um rapaz negro, suado e com um balde vazio com cheiro de sardinha. na cadeira da frente, outro rapaz compondo as mesmas características do que estava ao meu lado. dois rapazes negros, suados e que levavam em seus bolsos uns trocados que se transformariam em leite, pão e alguma outra coisa que cabece. certamente, em casa, uma mulher aguardava cheia de esperanças pelos trocados junto com alguns filhos enfeitados com barrigas d'águas, barriga de quem tem fome, mas fingi não tê-la, para continuar sorrindo do mundo e da tristeza. do outro lado, no esquerdo, uma senhorita, uma menina, uma cidadã corajosa, um ser humano que deu a cara à tapa. o cabelo artificial era maior que o meu quando solto, a pele negra estava coberta duma saia média de algodão e um blusa preta com alguns detalhes em prata. uma menina corajosa, que não se rendeu às intolerâncias, uma mulher que ultrapassou a rejeição de quem acredita ser dono do universo, dono das leis. uma garota que não se desesperou quando percebeu que alguns olhares a cruzavam, e algumas dezenas de dedos apontavam entre cochichos e risos de chacotas. do lado dela, minha vontade de abracá-la e dizer que seguisse no caminho em que ela se sentisse bem, feliz e sendo verdadeira consigo mesma. mas, não a disse. talvez, por covardia ou por medo de não ser compreendido. mesmo com tanta coragem. nos quinze minutos do meu ponto até à estação de ônibus ela não sequer levantou os olhos uma vez. muito provavelmente, não queria perceber os olhos de mais da metade dos passageiros lhe detalhando, comentando sobre ela. chegada à estação, desci na frente e evitei ser mais um que a olhava. por passar do horário combinado, corri para o ponto de espera. os dois compromissos me aguardavam, já estava dez minutos atrasado. passado alguns instantes, a menina que veio ao meu lado dentro do ônibus, chegou na fila em que eu estava e logo perguntou:
- este ônibus passa na liberdade?
respondi:
- sim.
e neste instante, entendi, ela estava ali, pois vivia em liberdade, e quem conhece o gosto dela, compreende que é preciso ser livre e feliz
Dona Maria casou-se com Jorge Peixada um dia após completar vinte anos de idade. Em seu tempo, seu Jorge precisou conquistar a confiança do seu Antônio Barbeiro, para se aproximar de Dona Maria, que naquele tempo de moça era conhecida como - Mar da Flor. Foi num dia de muita chuva na roça no município de Amargosa, no interior da Bahia, que Jorge viu sua futura esposa pela primeira vez.Ela lhe trouxe uma toalha que o pai, seu Antônio,  havia ordenado. Sem olhar nos olhos de Jorge, ela entregou-a e saiu desparada para o quarto. Trancou a porta, pois havia sentido algo estranho naquele pouco tempo em que estiveram próximos, pela primeira vez. Da fechadura da porta, viu Jorge tirar a camisa e enxugar o corpo gordo. Para Mar da Flor foi uma descoberta incrível, pela primeira vez havia visto um homem sem camisas. Nem o próprio pai  ficava sem camisa pela casa. Jorge fora o primeiro que ela vira. Os dias foram se passando e Mar da Flor não pensava em outra coisa. Deixou o arroz carreteiro queimar duas vezes. O leite da vaca não foi tirado durante uma semana. Ela passava as noites em claro, sonhando acordada e não conseguia  levantar às cinco horas da manhã. Passou uma semana quase adoentada, perdeu três quilos e não queria ir mais para escola, lugar que ela mais adorava ir, antes de conhecer Jorge. Quando ia, a lição era escrever o nome de Jorge por toda caderneta. Certo dia, voltando para casa, Jorge passou amontado num jegue. E perguntou para onde ela estava indo. Respondeu timidamente que - para casa. Impulsivo, Jorge ofereceu carona em sua garupa. E foram juntos até na ladeira do Cavaco, ela desceu e agradeceu pela carona. E ele disse - pela gentileza da toalha. Seis meses se passaram e os dois repetiram o ritual todos os dias, até aos domingos, quando Mar da Flor ia no túmulo da cadela Zetinha. A coitada morreu picada por uma surucucu. Era tarde da noite e a serpente conseguiu entrar na casinha da Zetinha. Entrou só para picar. Os latidos de dor e sofrimento acordaram os pais de Maria e ela, que saiu desesperada para ver o que havia acontecido. O último suspiro de dor fora nos braços de Mar da Flor. A cobra no alto do cajueiro sacudiu os galhos para avisá-los quem tinha feito o serviço. Eles a viram e ela rapidamente deu-se a rastejar e desaparecer das vistas. Na manhã seguinte, Zetinha ganhou velório, samba de roda, comida e bebedeira. O enterro aconteceu às cinco da tarde, no sol se por. Desde então, Mar da Flor vai no alto do cavaco deixar as flores prometidas. Durante todos os seis meses, nunca aconteceu um beijo. Eles se fizeram amigos, conheceram os gostos e os desagrados. Num dia do mês de Santana, Jorge entrou no casario em que Mar da Flor morava com os pais e ajoelhado em frente da moça, pediu-a em casamento. Os pais que já haviam percebido as mudanças ocorridas desde o dia em que Jorge entrou na casa todo molhado da chuva, concordaram com o pedido. Mandaram avisar aos parentes de longe que Mar da Flor, a única filha do casal, iria casar. No dia da festa do Bom Jesus da Lapa, Jorge Peixada e Mar da Flor, casaram-se. Vivem felizes, apesar das brigas quando falta Broa e Beiju no café da manhã.  Há sessenta anos eles dividem os dias. Tiveram onze filhos, treze netos e sete bisnetos. E vez ou outra se perguntam a quem o neto Ruan de 19 anos puxou. A pergunta vem sempre após a despedida do garoto. Eles não entendem bem e não fazem questão de entender por qual motivo o garoto, passando o dedo numa tela, mostra com orgulho as meninas que ele tá querendo pegar, as que já pegou e as que ele chama de Dragão.
Eu tinha as moedas que o menino de sete anos me pediu para comprar café com pão. Mas neguei os dois contos ao menino de sete anos que não tem pai nem mãe.
Ao virar à esquina da rua entrei no MC D. e paguei vinte contos por um quarteirão e adicionais que a caixa chamou de promoção. Comi a carne amarga do sanduíche Norte Americano como se fosse espinhos cortando minhas cordas vocais. O refrigerante serviu como uma correnteza que levou o que me cortava para dentro do estômago. Quando terminei, arrotei um bafo fedido e não me satisfiz. Dentro de mim havia algo me cortando.
Levantei e deixei a franquia Americana com um papel toalha secando minha mão. Atravessei a pista sem sequer olhar os lados da rua. Tive medo de avistar o menino de sete anos dentro duma lata de lixo ou assaltando para conseguir dois reais que não me fariam falta naquela manhã de domingo.
Abri a porta do meu apartamento e encontrei meu lar me esperando com um recado da minha mãe na secretária eletrônica, enquanto meu cachorro vira-lata lambia minha perna. Minha mãe dizia que o almoço do domingo seria reunião de família e amigos e que eu poderia convidar os meus conhecidos.
Fui para o banho com o garoto na cabeça, as palavras dele e o meu “não” sem som, com o olhar.
A cena do menino me dando as costas com uma das mãos balançando um pedaço de galho seco, cravou no meu peito e feriu. Neste instante, ele já devia ter mais fome.
Preparei a mochila, arranquei o aparelho celular do carregador e desci os degraus das escadas me odiando e com mil planos na mente.
Abri o portão do prédio e fui correndo em direção à esquina do Fest Food. O menino estava lá. Ainda tentava encontrar alguém para lhe pagar o café da manhã. Puxei-o pelo braço. Chorei aos pés dele e pedi perdão. Implorei que me perdoasse por negá-lo. Sem entender, me perguntou:
- O que fiz, Tio?
Não lhe disse nada e pedi que me acompanhasse.
Bati na casa da minha mãe e recomendei que desse ao garoto pão e café com leite. Antes, levei-o ao banho. E vesti com roupas da minha meninice. Enquanto o sol chegava ao centro do céu, o menino se fartava com os pães frescos e torrados com manteiga e queijo mozarela.
Os convidados foram chegando e as crianças dentro da timidez se conservavam nos primeiros cinco minutos. A mesa do almoço foi posta às quatro da tarde. Naquele dia, o menino de sete anos foi o primeiro a ser servido, foi o convidado especial do dia. E o domingo acabou com ele sonhando na minha cama de criança. E até hoje, dez anos depois, essa cena se repete.