Olha aí, é só um real. É só um real o amendoim no pacote, freguês. Olha aí, é só um real. É só essa moeda solta no bolso da calça, no canto morno da bolsa, da mochila da escola ou faculdade. Você pode comprar o meu amendoim, por favor. E, o menino repetia com sua voz de criança que o amendoim custava - só um real. O motorista no volante do ônibus carregava todo mundo, inclusive o menino vendedor de amendoim, como se estivesse atrasado para entregar uma mercadoria que estraga fácil. Certamente, foi lá pela manhã deste mesmo dia de hoje que o pequeno de cabelos de fogo e sarna no rosto e nos braços e no corpo todo acordou já pensando em procurar o álcool para molhar o carvão e fazer o fogaréu para torrar o amendoim. Para o menino, nenhuma lei foi deferida, proibindo-o de fazer amendoim torrado para vender. Se eu tivesse sido presidente na vida desse ser miúdo, teria criado uma lei ordenando que todas as crianças de todo o universo e todos os outros do mundo lá de fora da terra, teriam que morar numa ilha de diversão. A única hora que não estariam passeando e tomando sorvete nos parques e nas piscinas, seriam no instante que ocupados adquiririam saber sobre nuvens, piruetas, felicidades, quantas flores necessárias para um jardim, quantas palavras um poema e tantas outras coisas que a baboseira dos homens da vida cruel se diz real. Aí, o menino, de repente, sentiu o cansaço correr pelos olhos, arrepiando-o inteiro, como quem pressente o cruel. Sentou-se onde não deveria ocupar, mas os clientes, donos do real. E logo sentiu a idade de depois, ocupando seu serzinho de oito anos, neste instante, sofreu com os primeiros cansaços que chegam aos trinta e tantos anos. Era isso, a vida que vivia era de trinta e tantos anos, tendo apenas – oito. Sequer tinha uma unidade de década e já corria pela cidade com uma assadeira de amendoim torrado. Minha volta para casa cruzou com mais um de seus tantos ônibus de trabalho. Meus ouvidos que deixaram na universidade as aulas de literatura, se esforçam para não guardar consigo as palavras vazadas da boca que deveria estar soletrando os garranchos de letras que nessa idade toda criança em letramento sofre para desvendar. Mas, não. O menino de sarna pelo corpo pronunciava consigo sua mercadoria num marketing infantil e capitalista. A mãe da criatura estava em casa, de joelhos, na frente do altar dum bocado de santo, rezando pelo menino sarnento. Para que pudesse voltar. Para que o juizado de menor não o levasse preso. É. Prefiro pensar assim, que ela estava rezando por ele e pelo real que com certeza traria no bolso. Prefiro enxergá-la temente aos santos e a Deus que imaginá-la numa mesa de bar, esperando a cria chegar cabisbaixo e triste pelo que ganhou não ser suficiente para o rabo de galo.
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