o vendedor de água entrou no ônibus em que eu estava. entrou pela porta de saída. usava uma bolsa de lado e boné para proteger do sol. começou anunciar água mineral por um real em copo e por dois reais em garrafa. começou anunciar seu produto de qualidade - água mineral. e disse mais: " a situação está complicada, são sessenta e tantos bairros em salvador sem água. tá barril ficar dois dias sem tomar água. eu sei que é muito complicado ficar em casa e não ter água nem para beber... mas não se preocupem. vocês vão beber água, agora. em casa não tem água, mas no ônibus você encontra e é na minha mão que vocês poderão comprar. olhe, pessoal, estou passando, eu sei que o calor está de matar. é muito calor. e ainda temos sessenta e tantos bairros sem água. em casa vocês estão sem água, mas no ônibus vocês encontram...(ele reforçava o argumento.)." . o vendedor anunciava seu produto, enquanto me dirigia até a porta do desembarque. na minha frente, um rapaz jovem olhava o vendedor anunciando o produto, enquanto eu não conseguia segurar o riso da cena cômica e trágica. o rapaz não ria. estava sério e com ódio. talvez, com ódio de mim. e quanto mais eu ria, com mais cara de ódio ele ficava. os outros passageiros nem prestaram muito atenção no vendedor, alguns conversavam, outros babavam e um rapaz alto e bonito que acabara de entrar no ônibus, tentava encaixar sua bunda no último assento disponível no ônibus com itinerário - lapa. precisei descer do ônibus e abandonar o vendedor de água.
Nenhum comentário:
Postar um comentário